1 Coríntios 11:23-26: a Ceia do Senhor é memorial ou Cristo está presente no pão e no cálice?
"Fazei isto em memória de mim." Para nós, a Ceia é memorial com Cristo vivo no meio da igreja, não um rito que transmite graça por si.
"Fazei isto em memória de mim." Para nós, a Ceia é memorial com Cristo vivo no meio da igreja, não um rito que transmite graça por si.

Paulo repassou aos coríntios o que recebeu do Senhor: o pão partido, o cálice da nova aliança e a ordem de fazer isso em memória dele até que venha. As Assembleias de Deus e os batistas leem a Ceia como memorial e ordenança; os reformados falam de presença espiritual real de Cristo; os luteranos, de presença "em, com e sob" o pão e o vinho. Mostramos os lados, e dizemos onde estamos.
Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.1 Coríntios 11:26 · Almeida Corrigida Fiel (ACF), © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, citação curta
Paulo escreve à igreja de Corinto, onde a Ceia era celebrada dentro de uma refeição comunitária e virou ocasião de divisão: uns comiam e bebiam à vontade, outros passavam fome (11:17-22). É para corrigir isso que ele repete as palavras de Jesus, que diz ter recebido "do Senhor". É o relato escrito mais antigo da instituição da Ceia.
Jesus instituiu a Ceia na última Páscoa com os discípulos (Mateus 26:26-29; Marcos 14:22-25; Lucas 22:14-20). Na história da igreja, a pergunta sobre a presença de Cristo dividiu a Reforma: Lutero defendeu a presença real no pão e no vinho, Zuínglio viu a Ceia como memorial, e Calvino, segundo Heber Campos, ficou numa posição intermediária, de presença espiritual. Os três rejeitaram a transubstanciação católica.
Matthew Henry, comentarista inglês do século 18, resumiu o sentido da ordenança assim: quando vires isto, lembra-te de mim (tradução livre). Mas também falou em receber Cristo e alimentar-se dele pela fé, o que mostra que memorial e comunhão não se excluem. O batista Leandro Peixoto segue caminho parecido: diz que não é o pão que traz Cristo, mas a fé que traz Cristo para a celebração.
Um relato, duas ordens e um aviso. A disputa está em como entender "isto é o meu corpo" e o que significa "não discernindo o corpo do Senhor" (11:29).
Na Ceia do Senhor, o pão e o cálice são memorial e símbolo da morte de Cristo, ou por meio deles Cristo se faz realmente presente para quem participa?
"Isto é o meu corpo" é linguagem figurada, como "eu sou a porta". A Ceia lembra a cruz, celebra a comunhão e anuncia a volta de Cristo. Não transmite graça por si mesma: é para quem já está em comunhão com o Senhor, que está presente no meio dos seus reunidos em seu nome.
A Declaração de Fé rejeita o termo "sacramento" e chama a Ceia de ordenança: um rito simbólico que não transmite poder místico nem graça salvífica. É o memorial da morte de Jesus até a sua vinda, com passado, presente e futuro: a cruz, a comunhão com ele e com os irmãos, e a volta. As palavras "isto é o meu corpo" seriam linguagem metafórica.
Temos aqui o passado, a morte de Jesus; o presente, a nossa comunhão com Ele e com os irmãos; e o futuro, a sua volta.Declaração de Fé (CGADB/CPAD), capítulos XI e XIII (novembro de 2016)
A lição de José Gonçalves rejeita a transubstanciação: na última Páscoa, Jesus estava fisicamente à mesa e não podia estar dentro do pão, e "isto é" é metáfora, como "eu sou a porta". A Ceia não é sacramento que dá graça de forma mágica. Mas a lição acrescenta que Jesus se faz presente espiritualmente na celebração, e que essa é a posição da maioria dos pentecostais.
Contudo, Jesus se faz presente espiritualmente nos símbolos da Ceia (Mt 18.20). Essa é a posição da maioria dos pentecostais."A Ceia do Senhor — A segunda ordenança da Igreja", lição 10 do 1º trimestre de 2024 (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (10/03/2024)
A lição de Antonio Gilberto apresenta a Ceia como mandamento, memorial, profecia e gratidão. O pão e o vinho representam o corpo e o sangue de Cristo, e "ordenança" quer dizer algo ordenado pelo Senhor, não um meio de salvação. Mas ele insiste que a Ceia não é um símbolo vazio: é memorial da morte redentora e alerta para a volta de Jesus.
A Santa Ceia não é um mero símbolo; é um memorial da morte redentora de Cristo por nós e um alerta quanto à sua vinda.Lição 9 do 2º trimestre de 2009, "A importância da Santa Ceia" (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (31/05/2009)
A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira chama o batismo e a Ceia de ordenanças de natureza simbólica, instituídas pelo próprio Jesus. A Ceia é cerimônia da igreja reunida, comemorativa e proclamadora da morte do Senhor, que pressupõe o batismo e pede exame íntimo dos participantes. O pão representa o corpo e o vinho simboliza o sangue.
Nesse memorial o pão representa seu corpo dado por nós no Calvário e o vinho simboliza o seu sangue derramado.Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, artigo IX (site da CBB) (sem data na página (consultada em 01/11/2026))
Na Ceia, o crente não recebe só uma lembrança: pelo Espírito, é unido ao Cristo que está no céu e se alimenta dele pela fé. A presença não é física nem local, mas é real. O pão e o vinho são sinais e selos, sem poder mágico.
Heber Carlos de Campos expõe a posição de Calvino, que está na base da tradição presbiteriana: Cristo está presente por inteiro na Ceia, mas numa presença de relacionamento, não corporal. O corpo de Cristo está no céu, e o Espírito eleva o crente até ele. Segundo Campos, Calvino ficou entre Zuínglio, só memorial, e Lutero, presença corporal.
A presença real de Cristo na ceia não é uma presença corporal, mas uma presença de relacionamento."A presença real de Cristo na ceia no pensamento de Calvino" (Fides Reformata XIX, nº 1) (2014)
Hermisten Maia Pereira da Costa chama de bíblica a compreensão de Calvino: uma síntese que combina o espiritualismo de Zuínglio com o realismo de Lutero. Os sacramentos, para ele, são sinais e selos que não têm poder mágico; a sua eficácia vem da ação do Espírito Santo, que une o crente a Cristo.
A compreensão bíblica de Calvino a respeito da Ceia envolve uma síntese do pensamento de Lutero e de Zuínglio"O culto cristão na perspectiva de Calvino: uma análise introdutória" (Fides Reformata VIII, nº 2) (2003)
As palavras de Jesus afirmam uma presença: o pão e o vinho continuam pão e vinho, mas Cristo se dá com eles. A Ceia é memória, mas não só memória; é comunhão com o corpo e o sangue de Cristo (1 Coríntios 10:16).
Gottfried Brakemeier diz que a Ceia é memória, mas que o seu significado não se esgota num ato comemorativo: as palavras de Jesus afirmam uma presença. O luteranismo fala de Cristo presente "em, com e sob" os elementos, sem prendê-lo na hóstia. Para ele, discernir o corpo é reconhecer Cristo no pão e no vinho e também cuidar dos irmãos, especialmente dos pobres.
Mesmo assim, seu significado não se esgota num ato comemorativo. As palavras de Jesus afirmam uma presença."Discernir o corpo", prédica sobre 1 Coríntios 11:23-26, Proclamar Libertação, volume 46 (Portal Luterano) (14/04/2022 (data da pregação))
Sílvio Meincke, seguindo o Catecismo Menor de Lutero, ensina que na Santa Ceia Jesus Cristo se dá no comer e no beber do pão e do vinho. Ele rejeita a ideia de que o pão e o vinho mudem de substância, mas afirma que a pessoa de Cristo está presente na celebração, na oferta e na aceitação da Ceia.
Não que o pão e o vinho transformassem a sua substância em corpo e sangue, mas a pessoa de Cristo, com tudo que significa para nós, está presente na celebração"O sacramento do altar" (Portal Luterano) (09/11/2011)
O Paladino é um portal pentecostal e fica com a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: a Ceia do Senhor é ordenança e memorial, não sacramento que transmite graça por si. As palavras "isto é o meu corpo" são linguagem figurada, como "eu sou a porta", e o pão e o vinho continuam pão e vinho. A Declaração resume a Ceia em três tempos: "o passado, a morte de Jesus; o presente, a nossa comunhão com Ele e com os irmãos; e o futuro, a sua volta".
Mas memorial não é lembrança fria. A lição da CPAD de 2024 diz que Jesus se faz presente espiritualmente na celebração, conforme Mateus 18:20, e que essa é a posição da maioria dos pentecostais. É assim que a gente vive a Ceia: com o Cristo ressuscitado no meio dos irmãos, com o Espírito tocando o coração, com arrependimento e alegria.
Respeitamos os irmãos reformados e luteranos, que levam a Ceia muito a sério e também rejeitam a transubstanciação. Discordamos da ideia de que o pão e o vinho sejam meios de graça ou que Cristo esteja "em, com e sob" eles. Para nós, o que faz da Ceia um momento santo é Cristo presente no meio do seu povo e a fé de quem come e bebe lembrando a cruz.
Posição O Paladino · linha editorial pentecostal
Paulo não inventou o rito: "eu recebi do Senhor o que também vos ensinei" (11:23).
A ordem se repete duas vezes (11:24-25): a Ceia gira em torno de uma pessoa, não de um rito.
"Este cálice é o novo testamento no meu sangue" (11:25): a Ceia aponta para a aliança feita na cruz.
A Ceia olha para trás e para frente: anuncia a morte do Senhor até a sua volta (11:26).
"Examine-se, pois, o homem a si mesmo" (11:28): a mesa pede arrependimento, não perfeição.
A Declaração de Fé é clara: as ordenanças não transmitem graça salvífica. Quem salva é Cristo, recebido pela fé.
Como lembra Antonio Gilberto, ela "não é um mero símbolo": é memorial da cruz, comunhão com Cristo e anúncio da sua volta.
"Indignamente" fala da maneira de participar, como a desordem de Corinto, e não de ser digno por mérito próprio. O remédio é examinar-se e participar.
Reformados e luteranos confessam o mesmo Cristo crucificado e ressurreto. É divergência entre irmãos.
Antes do próximo culto de Ceia, faça o que Paulo manda: examine-se (11:28). Não para fugir da mesa, mas para chegar a ela arrependido, reconciliado com os irmãos e grato. A Ceia não é prêmio para os perfeitos, é mesa para os perdoados.
E na hora de comer o pão e beber o cálice, olhe para os três tempos da Declaração de Fé: lembre a cruz, celebre a comunhão com Cristo e com quem está ao seu lado, e anuncie que ele vai voltar. Cristo prometeu estar onde dois ou três estão reunidos em seu nome (Mateus 18:20).
Dica: Leia 1 Coríntios 10:16 junto com o capítulo 11: "o pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?". É o versículo que cada lado lê de um jeito.
Os lados leem 1 Coríntios 11 com Mateus 26:26-29, Lucas 22:14-20, João 6:48-58, 1 Coríntios 10:16-17, Êxodo 12 (a Páscoa) e Mateus 18:20.
"Memória" traduz anamnēsis, lembrança ativa. "Novo testamento" (11:25, ACF) é "nova aliança" em outras versões: diathēkē. "Indignamente" (11:27) traduz anaxiōs, advérbio que descreve o modo de participar; a lição da CPAD de 2024 destaca isso. "Comunhão" em 1 Coríntios 10:16 traduz koinōnia, participação.
A Ceia é memorial, mas não é velório: é a família de Deus à mesa com o Senhor ressuscitado no meio dela. O pão e o cálice não salvam nem mudam de substância, mas a igreja que come e bebe com fé lembra a cruz, celebra a comunhão e anuncia que Jesus vai voltar.
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Wan Anderson Pelicioni de Castro, editor responsável. Sugestão de pauta, correção ou conversa: mande mensagem no Instagram.
Consulta às fontes em 01/11/2026.
Pesquisa nas fontes listadas e redação feitas com apoio de inteligência artificial. Citações literais conferidas no texto das páginas citadas. As Lições Bíblicas da CPAD foram lidas na reprodução do site Estudantes da Bíblia. Linha editorial pentecostal adotada pelo portal em 30/10/2026.