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Mateus 19:3-9: quando a Bíblia permite o divórcio e um novo casamento?

Mateus 19:3-9Evangelho · Novo TestamentoNível intermediário45 min de estudo

Jesus voltou ao princípio: o que Deus ajuntou o homem não separa. Para nós, a infidelidade e o abandono são as únicas exceções bíblicas.

· Redação O Paladino

Pintura de Juan de Flandes, c. 1497: numa sala com colunas, Jesus, de manto escuro, e Maria, de véu branco, sentados à mesa coberta de toalha com os noivos e convidados; à frente, um servo de vermelho despeja água de um cântaro junto a talhas de barro
Juan de Flandes, As bodas de Caná (óleo sobre madeira, c. 1497). The Metropolitan Museum of Art, Nova York (domínio público, Open Access CC0)

Os fariseus perguntaram se era lícito repudiar a mulher "por qualquer motivo". Jesus respondeu com Gênesis e abriu uma única exceção: a fornicação. As Assembleias de Deus e os presbiterianos entendem que o adultério e o abandono pelo cônjuge descrente dissolvem o casamento. Outros cristãos ensinam que nenhum novo casamento é possível enquanto o cônjuge vive. Mostramos os dois lados, e dizemos onde estamos.

Versículo-chave

Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.
Mateus 19:6 · Almeida Corrigida Fiel (ACF), © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, citação curta

Contexto

Na época de Jesus, os mestres judeus discutiam Deuteronômio 24:1, que fala de "coisa indecente" como motivo da carta de repúdio. Solano Portela e João Paulo Aquino lembram a disputa entre a escola de Hilel, que admitia o divórcio por quase qualquer motivo, e a de Shammai, mais rígida. A pergunta dos fariseus ("por qualquer motivo") queria colocar Jesus num dos lados.

Jesus não escolheu escola: voltou ao princípio. A carta de divórcio de Moisés, disse ele, foi concessão "por causa da dureza dos vossos corações" (19:8). A lição da CPAD de 2013 lembra que essa carta protegia a mulher, que ficava livre para casar de novo, e que Deuteronômio 24:4 proibia voltar ao primeiro marido.

Marcos 10:11-12 e Lucas 16:18 registram a mesma palavra de Jesus sem a exceção, que aparece só em Mateus (5:32 e 19:9). Matthew Henry, comentarista inglês do século 18, explicou a exceção assim: se a esposa se prostitui e se faz uma só carne com um adúltero, a razão da lei cessa, e com ela a lei; e Jesus o proíbe em todos os outros casos (tradução livre).

Estrutura do texto

Uma armadilha, uma volta ao Éden e uma exceção. Jesus não entra na briga entre as escolas rabínicas sobre os motivos do divórcio: vai ao plano original. A frase "não sendo por causa de fornicação" (19:9) é o centro de todo o debate.

  1. A perguntaMt 19:3. Os fariseus, para tentar Jesus, perguntam se é lícito repudiar a mulher por qualquer motivo.
  2. O princípioMt 19:4-6. Jesus cita Gênesis 1:27 e 2:24: macho e fêmea, uma só carne; o que Deus ajuntou o homem não separa.
  3. A objeçãoMt 19:7. Então por que Moisés mandou dar carta de divórcio? Eles lembram Deuteronômio 24:1.
  4. A dureza do coraçãoMt 19:8. Moisés permitiu o repúdio por causa da dureza do coração, mas no princípio não foi assim.
  5. A exceçãoMt 19:9. Quem repudia a mulher, não sendo por causa de fornicação, e casa com outra, comete adultério.

O que dizem os teólogos

A Bíblia permite o divórcio e um novo casamento em algum caso, como o adultério e o abandono, ou ninguém pode casar de novo enquanto o primeiro cônjuge estiver vivo?

O adultério e o abandono pelo cônjuge descrente dissolvem o casamento, e o cônjuge fiel pode casar de novo (Assembleias de Deus e presbiterianos)

O casamento é para toda a vida, e o divórcio nunca é o ideal de Deus. Mas Jesus abriu uma exceção, a fornicação (Mateus 19:9), e Paulo outra: se o descrente se aparta, o crente "não está sujeito à servidão" (1 Coríntios 7:15). Nesses casos o vínculo se desfaz, e o cônjuge que foi vítima pode casar de novo, no Senhor.

Declaração de Fé das Assembleias de DeusTexto oficial da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB)

A Declaração de Fé ensina que no casamento os cônjuges prometem fidelidade até que a morte os separe. Ela aponta três casos que justificam a dissolução: morte (Romanos 7:2), infidelidade conjugal (Mateus 5:32 e 19:9) e deserção do cônjuge descrente (1 Coríntios 7:15). E não reconhece casamento religioso entre divorciados que contrarie o que Jesus ensinou.

Reconhecemos o casamento civil e o religioso com efeitos civis desde que não afrontem os princípios bíblicos e, em especial, não seja realizado entre pessoas divorciadas, em desacordo com o preconizado pelo Senhor Jesus.Declaração de Fé (CGADB/CPAD), capítulo XXIV, sobre a família (novembro de 2016)
Elinaldo Renovato de LimaComentarista das Lições Bíblicas da CPAD, segundo a revista

Elinaldo Renovato ensina que Jesus só admite o divórcio por infidelidade conjugal e que o novo casamento cabe apenas ao cônjuge fiel. Em 1 Coríntios 7:15, o crente abandonado pelo descrente também fica livre para casar de novo, no Senhor. Para ele, proibir a vítima de casar seria puni-la duas vezes, e o celibato imposto não faz parte do plano original de Deus (Gênesis 2:18).

Pelo texto bíblico, está claro que Jesus permite o divórcio, com a possibilidade de haver novo casamento, somente por parte do cônjuge fiel, vítima de prostituição, ou infidelidade conjugal."A Família Cristã no século XXI", Lições Bíblicas CPAD, 2º trimestre de 2013, lição 7, "O Divórcio" (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (19/05/2013)
João Paulo Thomaz de AquinoProfessor de Novo Testamento no CPAJ (Mackenzie) e no Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, segundo a revista (2014)

João Paulo Aquino sustenta que o divórcio entre cristãos por outro motivo que não o adultério é pecado. O divórcio por adultério não é pecado e permite novo casamento. Para ele, a ordem "fique sem casar" de 1 Coríntios 7:11 recai sobre quem buscou a separação, e existe para manter aberta a reconciliação; o cônjuge abandonado pode casar de novo.

Ainda assim, divórcio em caso de adultério não é pecado e não há restrição bíblica quanto a um novo casamento neste caso."1 Coríntios 7.10-11: divórcio entre cristãos?", Fides Reformata XIX, nº 1 (2014)
Solano PortelaPrega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, segundo o blog O Tempora, O Mores

Solano Portela comenta Mateus 19:3-6 e chama o divórcio de anomalia, não de norma. Lembra a disputa entre as escolas de Hilel e Shammai e diz que Jesus volta ao princípio. Com a Confissão de Fé de Westminster (24.6) e uma resolução da Igreja Presbiteriana do Brasil, admite o divórcio em só dois casos e critica o divórcio consensual.

Ele é permitido especificamente naqueles dois casos previstos na Escritura: o adultério e a deserção obstinada."O que é matrimônio e divórcio?" (blog O Tempora, O Mores) (29/06/2015)

Nenhum novo casamento é permitido enquanto o cônjuge vive (posição restritiva de alguns evangélicos e da Igreja Católica)

Marcos 10:11-12 e Lucas 16:18 não trazem exceção: todo novo casamento depois do divórcio é adultério. A "fornicação" de Mateus 19:9 não seria o adultério de casados, mas uma imoralidade ligada ao noivado ou uma união ilícita. 1 Coríntios 7:15 libera da convivência, não para casar de novo. Só a morte desfaz o vínculo (1 Coríntios 7:39).

Ricardo de Paula MeneghelliResponsável pelo site O Discípulo, ligado a um grupo de cristãos que se reúne principalmente nas casas, em Piracicaba (SP), segundo o site

Ricardo Meneghelli ensina que divorciar-se e casar de novo, ou casar com divorciado, é adultério, e que o adultério do cônjuge não libera o inocente. Para ele, a palavra porneia em Mateus 5:32 e 19:9 não quer dizer adultério, e sim imoralidade descoberta logo após o casamento ou uma união ilícita. Em 1 Coríntios 7:15, o abandonado fica livre da convivência, não para outro casamento; só a viuvez libera.

O adultério de um dos dois, não libera o cônjuge inocente para casar-se com outro."Divórcio e Novo Casamento" (site O Discípulo) (sem data na página (consultada em 02/11/2026))
Catecismo da Igreja CatólicaTexto oficial da Igreja Católica, na edição em português publicada pelo Vaticano

O Catecismo ensina que o casamento entre batizados, celebrado e consumado, só se dissolve pela morte. O divórcio civil pode ser tolerado em certos casos, para garantir direitos como o cuidado dos filhos, mas uma nova união enquanto o cônjuge vive é adultério. O Catecismo reconhece que o cônjuge vítima inocente do divórcio civil não peca, mas não lhe dá o direito de casar outra vez.

o cônjuge casado outra vez encontra-se numa situação de adultério público e permanenteCatecismo da Igreja Católica, parágrafos 2382 a 2386 (sem data na página (consultada em 02/11/2026))

Em que os dois lados concordam

  • O divórcio nunca é o ideal de Deus: Solano Portela o chama de anomalia, a lição da CPAD de 2013 diz que no projeto original não havia espaço para ele, e o Catecismo diz que "O divórcio é uma ofensa grave à lei natural."
  • Mateus 19:4-6 e Gênesis 2:24 são a regra: o casamento é uma só carne, para toda a vida. A Declaração de Fé, a CPAD, Solano Portela, Meneghelli e o Catecismo partem desse texto.
  • A morte desfaz o vínculo e o viúvo pode casar de novo, no Senhor (1 Coríntios 7:39): a Declaração de Fé, Meneghelli e o Catecismo concordam.
  • O divórcio "por qualquer motivo" (Mateus 19:3) é rejeitado por todos os lados.
  • A reconciliação é sempre o melhor caminho quando possível: Aquino, a CPAD e Meneghelli insistem nisso.

Nossa posição

Estamos com a Declaração de Fé das Assembleias de Deus. O casamento é aliança para a vida inteira: os cônjuges prometem "viver em fidelidade mútua, até que a morte os separe". O divórcio não é saída para crises, desamor ou incompatibilidade, e o caminho do crente diante das dificuldades é o perdão, a oração e a restauração.

Mas a Bíblia reconhece que a aliança pode ser quebrada. A Declaração afirma que a dissolução do casamento se justifica em três casos, a morte, a infidelidade conjugal e a deserção do cônjuge descrente, com base em Mateus 19:9 e 1 Coríntios 7:15. Entendemos, como a lição da CPAD de 2013, que nesses casos o cônjuge fiel pode casar de novo, no Senhor.

Respeitamos os irmãos que leem a exceção de forma mais restrita: eles querem honrar o mesmo Jesus que disse "o que Deus ajuntou não o separe o homem". E lembramos que a graça alcança quem errou. O divorciado arrependido não está fora do amor de Deus nem do cuidado da igreja.

Posição O Paladino · linha editorial pentecostal

O que o texto ensina

Por qualquer motivo?

A pergunta dos fariseus (19:3) era uma armadilha sobre os motivos do divórcio.

No princípio

Jesus responde com Gênesis 1:27 e 2:24: o plano de Deus vem antes da concessão de Moisés.

Uma só carne

"O que Deus ajuntou não o separe o homem" (19:6): o casamento é obra de Deus, não contrato humano.

A dureza do coração

A carta de divórcio foi concessão ao pecado humano (19:8), não o ideal de Deus.

Não sendo por causa de fornicação

A exceção de 19:9 é o ponto em que os dois lados do debate se separam.

Não está sujeito à servidão

1 Coríntios 7:15 é o segundo texto disputado: libertação para casar de novo ou só da convivência.

Leituras equivocadas

Usar as exceções como saída fácil Grave

A Declaração de Fé e os presbiterianos citados admitem o divórcio só nos casos bíblicos. Desentendimento, desamor ou incompatibilidade não estão na lista.

Tratar o divorciado como cristão de segunda classe Moderada

Os dois lados reconhecem que o cônjuge vítima do divórcio não pecou ao sofrê-lo. A igreja deve acolher e orientar.

Chamar de herege quem pensa diferente Moderada

Cristãos sérios leem a cláusula de exceção de modos diferentes. A divergência é de interpretação, não de fidelidade a Cristo.

Para a vida

Se você é casado, o texto é antes de tudo um chamado a cuidar do casamento: Jesus não começou pelas exceções, começou pelo plano de Deus. Antes de perguntar quando é permitido sair, pergunte o que você pode fazer hoje para que a aliança fique mais forte.

Se você passou por um divórcio, saiba que a igreja não é lugar de condenação. Converse com o seu pastor sobre a sua situação, com sinceridade e sem pressa, à luz da Palavra. Quem foi traído ou abandonado precisa de acolhimento, e quem errou encontra em Cristo perdão para recomeçar.

É para você se…

  • Casais que querem entender o que a Bíblia diz sobre a aliança do casamento
  • Pessoas divorciadas que buscam orientação bíblica
  • Professores de Escola Dominical e líderes de casais

Pense duas vezes se…

  • Quem procura uma justificativa rápida para se divorciar

Como estudar

  • Sozinho: Leia Mateus 19:3-12, Marcos 10:2-12, Lucas 16:18 e 1 Coríntios 7:10-16 e anote o que cada texto acrescenta.
  • Em casal: Leia Mateus 19:4-6 com o seu cônjuge e conversem sobre o que significa ser uma só carne no dia a dia.
  • Em grupo: Monte uma tabela com Deuteronômio 24:1-4, Malaquias 2:16, Mateus 19:9 e 1 Coríntios 7:15 e a leitura de cada lado.

Dica: Leia Mateus 19:3-9 duas vezes: na primeira, olhe só para o que Jesus diz sobre o princípio; na segunda, para a exceção. A ordem importa: o plano de Deus vem antes da concessão.

Versículos para ler junto

  • Gênesis 2:24 Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.
  • Malaquias 2:16 Porque o Senhor, o Deus de Israel diz que odeia o repúdio.
  • Marcos 10:11 Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra, adultera contra ela.
  • 1 Coríntios 7:15 Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão.

Os dois lados leem Mateus 19 com Gênesis 2:24, Deuteronômio 24:1-4, Malaquias 2:14-16, Mateus 5:31-32, Marcos 10:2-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:10-16 e 39.

Traduções

A ACF traz "não sendo por causa de fornicação"; outras versões dizem "relações sexuais ilícitas" ou "imoralidade sexual". A palavra grega é porneia, mais ampla que moicheia (adultério), e é aqui que os lados divergem: uns leem porneia incluindo o adultério de casados, outros a limitam a faltas do noivado ou a uniões ilícitas. "Repudiar" traduz apolyō, despedir, mandar embora.

Para guardar

Ideal para grupos

Jesus colocou o casamento no lugar mais alto: uma só carne, obra de Deus. Para nós, o divórcio só é admissível quando a própria aliança foi quebrada pela infidelidade ou pelo abandono do descrente, e o cônjuge fiel pode recomeçar no Senhor. Quem lê de forma mais restrita também quer honrar o mesmo Jesus.

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Fale com o editor

Wan Anderson Pelicioni de Castro, editor responsável. Sugestão de pauta, correção ou conversa: mande mensagem no Instagram.

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Ficha

Livro
Mateus
Autor
Mateus, segundo a tradição da igreja
Cenário
Na Judeia, além do Jordão, a caminho de Jerusalém
Passagem
7 versículos (19:3-9)
Palavras-chave
porneia (fornicação), moicheia (adultério), apolyō (repudiar), sarx mia (uma só carne)

Fontes

Consulta às fontes em 02/11/2026.

Como foi feito

Pesquisa nas fontes listadas e redação feitas com apoio de inteligência artificial. Citações literais conferidas no texto das páginas citadas. As lições da CPAD foram lidas na reprodução do site Estudantes da Bíblia. No lado restritivo, não foi encontrado autor evangélico brasileiro de alcance nacional com texto lido; por isso entram um autor de alcance menor e o Catecismo da Igreja Católica. Linha editorial pentecostal adotada pelo portal em 30/10/2026.

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