Romanos 9: Deus escolhe pessoas para a salvação ou povos para uma missão
Jacó e Esaú, Faraó, o oleiro e o barro: o capítulo mais citado no debate entre calvinistas e arminianos, lido por quem defende cada lado no Brasil.
Jacó e Esaú, Faraó, o oleiro e o barro: o capítulo mais citado no debate entre calvinistas e arminianos, lido por quem defende cada lado no Brasil.

"Amei a Jacó, e odiei a Esaú". Poucos versículos dividem tanto os evangélicos quanto os de Romanos 9. Para os reformados, Paulo fala de pessoas escolhidas por Deus para a salvação antes de nascerem. Para arminianos e outros não calvinistas, ele fala de povos, Israel e Edom, escolhidos para um papel na história. Os dois lados concordam num ponto que muda o tom da conversa: ninguém é escolhido por mérito.
Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.Romanos 9:16 · Almeida Corrigida Fiel (ACF), © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, citação curta
Romanos é a carta mais sistemática de Paulo. Nos capítulos 1 a 8 ele expõe a justificação pela fé e termina com a certeza de que nada separa os crentes do amor de Deus (8:38-39). Logo surge a pergunta: se Israel recebeu as promessas e a maioria rejeitou o Messias, as promessas de Deus falharam? Os capítulos 9 a 11 respondem a isso.
Os versículos 10 a 13 citam duas passagens do Antigo Testamento. Gênesis 25:23 é o oráculo dado a Rebeca: "duas nações há no teu ventre", e o maior servirá ao menor. Malaquias 1:2-3, escrito séculos depois, fala de Deus amar Jacó e aborrecer Esaú, no contexto do juízo sobre Edom. A discussão é se Paulo usa os textos pelo que dizem dos povos ou pelo que mostram da escolha de Deus sobre pessoas.
Os comentaristas clássicos também se dividem. Calvino reconhece que Malaquias fala dos edomitas, mas lê no capítulo a eleição de pessoas para a salvação e a reprovação de outras. John Wesley, nas suas Notas sobre o Novo Testamento, afirma que o versículo 13 não se refere às pessoas de Jacó e Esaú, e que Esaú serviu a Jacó na sua descendência, não em pessoa.
A imagem do oleiro vem dos profetas (Isaías 29:16; Jeremias 18:1-10). Em Jeremias, o oleiro refaz o vaso que se estragou, e Deus diz que mudará o mal anunciado se a nação se converter. Os dois lados usam o mesmo texto: os reformados destacam o direito do oleiro; os arminianos, a resposta de Deus à conduta do povo.
O capítulo responde a uma pergunta sobre a fidelidade de Deus a Israel, e a resposta só termina no capítulo 11. A discussão sobre eleição nasce dessa pergunta.
Em Romanos 9, Paulo fala da escolha de pessoas para a salvação (eleição individual e incondicional) ou da escolha de povos para um papel na história da redenção (eleição corporativa)?
Jacó foi escolhido como indivíduo, antes de nascer e sem levar em conta obras; o efeito sobre a nação vem depois. Os singulares do texto, Faraó e as objeções que Paulo antecipa mostram que o tema é a salvação de pessoas, escolhidas de dentro de Israel e também entre os gentios.
Augustus Nicodemus lista razões para a leitura individual: o singular "quem" do versículo 15, os particípios "o que quer" e "o que corre" do 16, Faraó como pessoa, as objeções dos versículos 14 e 19, que só fariam sentido com eleição de pessoas, e o "dentre judeus e gentios" do 24. Para ele, a promessa é para os filhos espirituais de Abraão, escolhidos dentro da nação.
A eleição de Jacó sobre Esaú (Romanos 9:10-13) pode ter implicações nacionais, mas começa com dois indivíduos."Comentário sobre Romanos 9: a eleição é de indivíduos ou de nações?" (resposta publicada em rede social, reproduzida no blog Bereianos) (janeiro de 2014)
Franklin Ferreira lê Romanos 9 como a soberania de Deus ao escolher Isaque e Jacó antes do nascimento e sem considerar obras. Ao mesmo tempo, sustenta que a eleição de Israel como nação continua (Romanos 11) e que as duas dimensões convivem: há eleição pessoal dentro da eleição nacional.
Embora os dois conceitos de eleição, corporativa e pessoal, se sobreponham, não se contradizem. Assim, podemos falar de um Israel dentro do Israel, da eleição pessoal dentro da eleição nacional."Romanos 10–11: a fidelidade de Deus à aliança com Israel" (coluna na Gazeta do Povo, a partir de pregação no Congresso Fiel) (21/11/2024)
João Alves dos Santos usa os versículos 20 a 23 para afirmar a soberania de Deus, mas chama a atenção para os verbos: os vasos de misericórdia Deus "preparou de antemão" (voz ativa), enquanto os vasos de ira estão "preparados" (voz passiva, sem agente). A ira, diz ele, pressupõe o pecado.
Mas Paulo tem o cuidado de não atribuir diretamente a Deus a responsabilidade pela perdição dos não eleitos"Calvino e o lapsarianismo", Fides Reformata XXII, nº 2 (2017)
Jacó e Esaú representam Israel e Edom, como dizem Gênesis 25:23 e Malaquias 1. A eleição é corporativa: Deus escolhe um povo, e hoje a igreja em Cristo, para a sua missão. Cada pessoa entra nesse povo pela fé, como Paulo mostra em Romanos 10 e 11.
Vinicius Couto, que se declara arminiano-wesleyano, lembra que Gênesis 25:23 fala de "duas nações" e que Esaú, em vida, nunca serviu a Jacó; a profecia se cumpriu quando Davi submeteu Edom (2 Samuel 8:14). O "odiei" de Malaquias 1 é o juízo sobre os edomitas, não uma sentença sobre a alma de Esaú.
Os calvinistas gostam de Romanos 9 e com toda freqüência alegam que este capítulo trata da eleição individual, mas o texto claramente fala acerca de nações e não indivíduos."Amei Jacó e odiei Esaú: o que isso significa?" (trecho do livro Em favor do arminianismo-wesleyano) (09/11/2016)
Gutierres Siqueira lê a eleição pela mentalidade hebraica: o eleito é Israel como povo, e no Novo Testamento a igreja é eleita em Cristo. A eleição é para missão e responsabilidade, não só privilégio. Ele reconhece que essa leitura não era a de Armínio nem a dos primeiros arminianos, e que ela não exclui a dimensão individual.
O eleito é a nação da Israel e a eleição é acima de tudo corporativa."A doutrina da eleição em perspectiva hebraica" (blog Teologia Pentecostal) (31/03/2020)
Ciro Zibordi, que recusa os rótulos de arminiano e de calvinista, lê Jacó e Esaú como Israel e Edom e o "aborrecer" como o hebraísmo "amar menos" (Gênesis 29:30-31; Lucas 14:26). Em Jeremias 18, o oleiro age conforme a conduta da nação, e Faraó endureceu o próprio coração antes. Romanos 10 mostra que cada um precisa crer.
Jacó (Israel) e Esaú (Edom) representam duas nações!"Por que Romanos 9 não avaliza a predestinação incondicional" (blog do autor, partes 1 e 2) (05/11/2008)
O capítulo inteiro defende a fidelidade de Deus (9:6). Qualquer leitura da eleição que termine em desconfiança de Deus perdeu o ponto de partida de Paulo.
Jacó e Esaú não tinham feito bem nem mal (9:11). Os dois lados concordam: a iniciativa é de Deus, e ninguém a conquista.
"Há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma" (9:14). Paulo não resolve todas as perguntas, mas fecha a porta para a acusação contra Deus.
Os vasos de misericórdia são chamados dentre judeus e gentios (9:24), cumprindo Oseias: "chamarei meu povo ao que não era meu povo" (9:25).
"Quem és tu, que a Deus replicas?" (9:20). O texto pede humildade a calvinistas e arminianos.
Paulo, logo depois de Romanos 9, ora por Israel e diz que todo o que invocar o nome do Senhor será salvo (10:1, 13). Os dois lados neste estudo evangelizam.
Calvinismo e arminianismo são tradições históricas dentro da fé evangélica. A divergência é séria, mas é entre irmãos que confessam a salvação pela graça mediante a fé.
O argumento de Paulo só termina em 11:33-36, com louvor à sabedoria de Deus. Parar no versículo 22 dá ao capítulo um peso que o próprio Paulo não deu.
Mesmo quem lê o capítulo como eleição individual reconhece o pano de fundo de Malaquias e de Edom; parte dos intérpretes lê "aborrecer" como amar menos (Gênesis 29:30-31; Lucas 14:26).
As duas leituras tiram o orgulho do centro. Se Deus escolhe pessoas sem olhar obras, ninguém tem do que se gabar; se Deus escolhe um povo para uma missão, ninguém é escolhido para si mesmo. Em qualquer leitura, a pergunta prática é a de Paulo no versículo 20: quem somos nós para julgar a Deus?
O capítulo começa com lágrimas (9:2-3) e o capítulo seguinte começa com oração (10:1). Antes de usar Romanos 9 para vencer um debate, vale fazer o que Paulo fez: chorar e orar por quem ainda não crê, e anunciar o evangelho a todos (10:13-15).
Dica: Faça uma lista das perguntas que o próprio Paulo levanta no capítulo (vv. 6, 14, 19, 30): elas mostram por onde o argumento caminha.
Os dois lados leem Romanos 9 com Efésios 1:3-14 (escolhidos em Cristo), Romanos 8:28-30 (os que dantes conheceu, também predestinou), 1 Timóteo 2:4 (Deus quer que todos se salvem) e 2 Pedro 3:9.
"Odiei" (Almeida) traduz o grego emisēsa, o mesmo verbo da tradução grega antiga (Septuaginta) em Malaquias 1:3. O par amar e aborrecer aparece também em Gênesis 29:30-31, sobre Lia, menos amada que Raquel. "Preparados para a perdição" (v. 22) e "já dantes preparou" (v. 23) traduzem verbos diferentes no grego, katērtismena (voz passiva) e proētoimasen (voz ativa).
Romanos 9 não foi escrito para ganhar discussão, e sim para responder a uma dor: Deus é fiel? A resposta de Paulo vale para os dois lados: a salvação nasce da misericórdia, não do mérito, e termina em adoração (11:33). Estude o capítulo com quem pensa diferente; a humildade do versículo 20 vale para todos.
Conhece alguém que vai gostar?
Mande este estudo para o seu grupo.
Consulta às fontes em 30/10/2026.
Pesquisa nas fontes listadas e redação feitas com apoio de inteligência artificial. Citações literais conferidas no texto das páginas citadas. O texto de Augustus Nicodemus sobre Romanos 9 é a reprodução, no blog Bereianos, de uma resposta dele em rede social; o original não foi localizado.