Gênesis 6:1-4: quem são os "filhos de Deus" que tomaram as filhas dos homens?
Anjos caídos ou descendentes de Sete? Para nós, os filhos de Deus são homens da linhagem piedosa que se misturaram com os que viviam longe de Deus.
Anjos caídos ou descendentes de Sete? Para nós, os filhos de Deus são homens da linhagem piedosa que se misturaram com os que viviam longe de Deus.

"Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram." Poucos versículos dividem tanto os leitores da Bíblia. Autores das Assembleias de Deus leem os filhos de Deus como descendentes de Sete, a linhagem que invocava o nome do Senhor. Outros cristãos leem como anjos caídos que se uniram a mulheres, com apoio em 2 Pedro e Judas. Mostramos os dois lados, e dizemos onde estamos.
Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.Gênesis 6:2 · Almeida Corrigida Fiel (ACF), © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, citação curta
Gênesis 4 conta a linhagem de Caim, que termina em Lameque, o primeiro bígamo e um homem violento (4:19-24). Gênesis 5 conta a linhagem de Sete, com Enoque, que andou com Deus, e termina em Noé. Gênesis 6:1-4 vem entre as duas listas e o relato do dilúvio, e logo depois o texto diz que "a maldade do homem se multiplicara sobre a terra" (6:5).
"Gigantes" (6:4) traduz nefilim, palavra que, segundo o léxico de Strong no Bible Hub, aparece só em Gênesis 6:4 e Números 13:33; o Strong a define como valentão, tirano, gigante. O léxico Brown-Driver-Briggs registra que a leitura angelical é a da Septuaginta, de 1 Enoque, da maioria dos pais antigos e dos críticos modernos, e que Agostinho, Lutero e Calvino entenderam os filhos de Deus como os piedosos. Uma terceira leitura vê ali reis ou nobres poderosos; o presbiteriano Renato Patrick, de Conselheiro Lafaiete (MG), a defende no seu blog.
Matthew Henry, comentarista inglês do século 18, escreveu que os filhos de Deus eram os que professavam a religião e invocavam o nome do Senhor, e que a descendência de Sete não se manteve à parte, como devia; sobre os valentes do versículo 4, comentou que grande poder é um grande laço para muitos (tradução livre).
Quatro versículos que servem de ponte entre a genealogia de Gênesis 5 e o dilúvio. Logo depois, o versículo 5 diz que a maldade do homem se multiplicara. O debate é sobre quem são os filhos de Deus do versículo 2.
Os "filhos de Deus" de Gênesis 6 são homens da linhagem piedosa de Sete que se misturaram com os ímpios, ou anjos caídos que se uniram a mulheres?
Gênesis 4 e 5 apresentam duas linhagens: a de Caim, que se afasta de Deus, e a de Sete, em que se começou a invocar o nome do Senhor (4:26). Os filhos de Deus são os homens dessa linhagem, que se misturaram com as filhas dos homens e se corromperam. Jesus ensinou que os anjos não se casam (Mateus 22:30), e o juízo do versículo 3 recai só sobre o homem.
Claudionor de Andrade lê Gênesis 6 em continuidade com a história de Lameque: a beleza das filhas da linhagem de Lameque atraiu os filhos de Sete, que, antes piedosos, passaram a imitar a sua bigamia. Para ele, os pecados de Caim e de Lameque se espalharam a ponto de corromper a linhagem piedosa de Sete, e os valentes do versículo 4 eram uma geração violenta.
Os pecados de Caim e Lameque alastraram-se de tal maneira que viriam a depravar, inclusive, a linhagem piedosa de Sete."O começo de todas as coisas — Estudos sobre o livro de Gênesis", Lições Bíblicas CPAD, 4º trimestre de 2015, lição 6, "O impiedoso mundo de Lameque" (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (08/11/2015)
Ciro Zibordi reconhece que, em Jó 1:6, os filhos de Deus são anjos, mas diz que Gênesis 6 pede outra explicação: os homens tementes a Deus de Gênesis 5 mostram que se trata da linhagem de Sete. Entre os seus argumentos estão Mateus 22:30, a natureza espiritual dos anjos (Hebreus 1:14) e o uso da expressão para homens em outros textos. Ele vê ali o primeiro casamento misto entre crentes e incrédulos.
A menção a homens tementes a Deus, em Gênesis 5, é uma prova de que os “filhos de Deus” do capítulo seguinte não são anjos, e sim piedosos servos do Senhor da linhagem de Sete, filho de Adão."Quem são os filhos de Deus em Gênesis 6.2?" (2007) e "Anjos podem possuir mulheres?" (2017), Blog do Ciro (31/10/2007 e 19/02/2017)
Reinaldo Siqueira apresenta as três leituras, reconhece que todas têm argumentos fortes e defende a de Sete pela leitura atenta do texto: o verbo "começar" liga 4:26 a 6:1, o "tomar mulheres" de 6:2 ecoa Lameque em 4:19, e a estrutura põe os dois grupos no plano humano. Ele lembra Mateus 22:30 e observa que o juízo do versículo 3 recai só sobre o ser humano.
o vs. 3 deixa claro que o juízo divino concernia o ser humano somente.Artigo sobre os filhos de Deus em Gênesis 6:1-4, Kerygma, ano 1, nº 2 (2º semestre de 2005)
Em Jó, "filhos de Deus" designa anjos, e Gênesis 6:2 opõe os filhos de Deus às filhas dos homens em geral, não às filhas de Caim. O Novo Testamento decide a questão: 1 Pedro 3:19-20 liga espíritos em prisão aos dias de Noé, 2 Pedro 2:4 fala de anjos que pecaram logo antes do dilúvio, e Judas 6-7 compara esses anjos a Sodoma, que foi "após outra carne".
Felipe Oliveira reconhece que Gênesis 6, sozinho, é indeciso, mas diz que o Novo Testamento decide. Gênesis 4 e 5 falam de filhos de Sete e de Caim, e 6:2 opõe filhos de Deus a mulheres em geral; 1 Pedro 3, 2 Pedro 2:4 e Judas 6-7 apontam para anjos. Sobre Mateus 22:30, responde que esses anjos agiram contra a própria natureza. E lembra que o tema não é essencial e não tem posição oficial reformada.
Gênesis 6, sozinho, não decide a questão — mas o Novo Testamento decide."Filhos de Deus em Gênesis 6: Anjos ou Homens?" (Instituto Reformado de São Paulo) (25/05/2026)
Carlos Vailatti reúne os testemunhos antigos da leitura angelical, como a Septuaginta, 1 Enoque, Jubileus, Filo, Josefo e pais da igreja como Justino, Irineu e Tertuliano. Ele usa Jó 1:6 e 38:7 e diz que essa leitura parece encontrar apoio em 1 Pedro 3, 2 Pedro 2:4 e Judas 6. Seu artigo, porém, é acadêmico e conclui que o texto seria um fragmento de lenda antiga, o que vai além da leitura angelical evangélica.
os quais, segundo entendemos, são os mesmos benê-hâ'elôhîm, isto é, os "anjos caídos" de Gn 6:2,4.Artigo sobre as várias interpretações dadas a Gênesis 6:1-4, Revista Vértices, nº 15 (USP) (2013)
Seguimos a leitura dos autores das Assembleias de Deus: os filhos de Deus são homens da linhagem de Sete, que invocava o nome do Senhor (Gênesis 4:26), e que se misturaram com as filhas dos homens até se corromper. O contexto de Gênesis 4 e 5 aponta para duas linhagens humanas, e o juízo do versículo 3 recai sobre o homem.
A Declaração de Fé das Assembleias de Deus não trata de Gênesis 6, mas o que ela ensina sobre os anjos pesa nessa direção: os anjos "não possuem corpo físico ou material" e "não se reproduzem", com base em Marcos 12:25. É uma inferência nossa a partir desse ensino, não uma declaração dela sobre o texto.
Respeitamos os irmãos que leem ali anjos caídos: eles também levam a sério 2 Pedro e Judas. O texto é difícil, e nenhuma das leituras muda o centro da fé. O que Gênesis 6 deixa claro para todos é que Deus vê a corrupção, chama ao arrependimento e guarda os que acham graça aos seus olhos.
Posição O Paladino · linha editorial pentecostal
O centro do debate é a identidade do grupo de 6:2.
A escolha guiada só pela aparência (6:2).
O Espírito de Deus contende com o homem, mas há limite (6:3).
"Havia naqueles dias gigantes na terra" (6:4).
O versículo 5 mostra aonde a corrupção chegou.
No meio do juízo, Deus preserva um homem e sua família (6:8).
O texto diz pouco. O foco de Gênesis 6 é a corrupção humana e o juízo de Deus.
Felipe Oliveira lembra que o tema não é essencial. Cristãos fiéis leem de modos diferentes.
1 Enoque é antigo e Judas o cita, mas não faz parte das Escrituras.
Seja qual for a leitura, o texto mostra a corrupção que precede o juízo. Para quem segue a leitura de Sete, o alerta é claro: o povo de Deus perdeu a sua identidade ao se misturar com quem vivia longe de Deus. Escolhas de casamento, amizades e alianças importam (2 Coríntios 6:14).
E o versículo 3 lembra a paciência de Deus: o seu Espírito contende com o homem, mas não para sempre. Enquanto há tempo, Deus chama ao arrependimento. Em meio àquela geração, "Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor" (6:8).
Dica: Leia Gênesis 6:1-8 inteiro. Os quatro primeiros versículos só fazem sentido junto com os quatro seguintes, que mostram a resposta de Deus.
Os dois lados leem Gênesis 6:1-4 com Gênesis 4:16-26 e 5, Jó 1:6, 2:1 e 38:7, Números 13:33, Deuteronômio 14:1, Mateus 22:30, 1 Pedro 3:18-20, 2 Pedro 2:4-5 e Judas 6-7.
"Filhos de Deus" traduz bene ha'elohim. "Gigantes" (6:4) traduz nefilim; algumas versões mantêm a palavra hebraica. "Valentes" traduz gibborim, os poderosos. "Não contenderá" (6:3) também é traduzido como "não permanecerá"; os 120 anos são lidos por uns como prazo até o dilúvio e por outros como limite da vida humana.
Gênesis 6:1-4 é um texto difícil, e cristãos fiéis o leem de modos diferentes. Para nós, a leitura mais coerente com o contexto de Gênesis 4 e 5 e com o ensino de Jesus sobre os anjos é a de Sete: o povo que invocava o nome do Senhor se misturou com o mundo e se corrompeu. O alerta continua valendo.
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Wan Anderson Pelicioni de Castro, editor responsável. Sugestão de pauta, correção ou conversa: mande mensagem no Instagram.
Consulta às fontes em 05/11/2026.
Pesquisa nas fontes listadas e redação feitas com apoio de inteligência artificial. Citações literais conferidas no texto das páginas citadas. A lição da CPAD foi lida na reprodução do site Estudantes da Bíblia. A Declaração de Fé não trata de Gênesis 6; o que o estudo usa dela é o que diz sobre a natureza dos anjos. Para a leitura dos reis ou nobres foi encontrado só um autor brasileiro com texto lido, por isso ela aparece no contexto e não como um lado. A pintura de Lorenzo Monaco mostra Noé com a arca. Linha editorial pentecostal adotada pelo portal em 30/10/2026.