Romanos 13:1-7: até onde vai a obediência do cristão ao governo?
Paulo mandou os cristãos de Roma se sujeitarem às autoridades. Para nós, a submissão é a regra, e o limite é a Palavra de Deus.
Paulo mandou os cristãos de Roma se sujeitarem às autoridades. Para nós, a submissão é a regra, e o limite é a Palavra de Deus.

"Toda a alma esteja sujeita às autoridades superiores." Paulo escreveu isso aos cristãos de Roma no tempo do imperador Nero. As Assembleias de Deus ensinam submissão às autoridades, com um limite: quando a lei humana contraria a de Deus, obedece-se a Deus e aceitam-se as consequências. Pensadores da tradição reformada defendem que a autoridade que perde a legitimidade pode ser resistida por meios legítimos. Mostramos os dois lados, e dizemos onde estamos.
Toda a alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram ordenadas por Deus.Romanos 13:1 · Almeida Corrigida Fiel (ACF), © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, citação curta
Paulo escreveu aos Romanos por volta do ano 57 ou 58, segundo o luterano Paulo Daenecke e o comentarista Matthew Henry. O imperador era Nero, que governou de 54 a 68. A perseguição de Nero aos cristãos, depois do incêndio de Roma, veio anos mais tarde, em 64.
O contexto ajuda a entender o versículo 7. O historiador romano Tácito registra, nos Anais, que o povo protestava contra a ganância dos cobradores de impostos no tempo de Nero, a ponto de o imperador pensar em abolir os impostos indiretos. Paulo, mesmo assim, manda pagar "a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto".
Matthew Henry, comentarista inglês do século 18, escreveu que nenhum governante perverteu tanto os fins do governo quanto Nero, e mesmo assim Paulo apelou a ele e teve a proteção da lei; melhor um mau governo do que nenhum (tradução livre).
Uma ordem, uma razão e um dever prático. Paulo diz de onde vem a autoridade (13:1), para que ela existe (13:4) e o que o cristão lhe deve (13:7). O debate gira em torno do versículo 4: o que fazer quando a autoridade deixa de ser ministro de Deus para o bem?
O cristão deve obedecer a qualquer governo, resistindo só quando é obrigado a pecar, ou pode resistir por meios legítimos a uma autoridade que perde a legitimidade?
Toda autoridade é instituída por Deus, e o cristão a honra, paga tributos, ora por ela e obedece por consciência. O único limite é a Palavra: quando a ordem humana contraria a de Deus, "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29). Mesmo então, o cristão desobedece sem violência e aceita as consequências.
A Declaração de Fé ensina que Deus constituiu as autoridades para administrar a vida em comunidade e que a igreja não pode desconsiderá-las. Ela reconhece a legitimidade das autoridades e ensina a submissão a elas, com um limite: os preceitos bíblicos. Em caso de conflito entre as normas do Estado e a Bíblia, a Bíblia prevalece (Atos 5:29). E afirma o direito de votar, ser votado e participar da vida pública.
Reconhecemos a legitimidade das autoridades constituídas e ensinamos nossa submissão a elasDeclaração de Fé (CGADB/CPAD), capítulo XVI, sobre a Igreja e o Estado (novembro de 2016)
José Gonçalves explica que, em Romanos 13, a palavra exousia se refere aos governantes civis, e que o Estado existe para promover o bem e punir o mal; sem obediência, vem a anarquia. O cristão honra as autoridades, paga os tributos e se submete por consciência. A desobediência só se justifica quando a lei humana contraria a divina, e mesmo assim o cristão assume as consequências.
A desobediência civil só se justifica no caso de conflito entre a lei humana e a divina (At 5.29)."Maravilhosa Graça", Lições Bíblicas CPAD, 2º trimestre de 2016, lição 10, "Deveres civis, morais e espirituais" (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (05/06/2016)
Hernandes Dias Lopes lê Romanos 13 como ensino sobre a origem, a natureza e a finalidade das autoridades. Deus instituiu o princípio do governo, não o despotismo, e a autoridade é serva do povo. A submissão do cristão não é servil, é crítica e positiva: se a autoridade inverte a sua função, a igreja deve alertá-la, e se a lei obriga a negar a fé, vale Atos 5:29.
Nossa sujeição às autoridades não é submissão servil nem subserviência, mas submissão crítica e positiva."Uma reflexão sobre o cristão e a política" (Guiame) (29/10/2014 (atualização))
Romanos 13 descreve a autoridade como ministro de Deus para o bem (13:4). Quando o governo usurpa o lugar de Deus e passa a perseguir o bem, ele ultrapassa os limites que Deus lhe deu. Nessa situação, o cristão não deve só suportar: pode resistir por meios legítimos. Na tradição de Calvino, essa resistência cabe primeiro às autoridades inferiores, que têm o dever de conter o tirano.
Franklin Ferreira resume o princípio geral: obedecer, exceto quando a ordem envolver pecado. Mas vai além da desobediência pontual: para ele, a obediência ao Estado é legítima até o ponto em que o Estado tenta usurpar o lugar de Deus. Quando ultrapassa esse limite, o cristão deve resistir com fidelidade, sempre com postura respeitosa e consciente da sua cidadania celestial.
Quando o Estado ultrapassar seus limites, resista com fidelidade."O cristão e a legítima obediência ao Estado" (coluna na Gazeta do Povo) (17/07/2025)
Armando Silvestre mostra que Calvino, nas Institutas, não dá ao cidadão comum o direito de resistir ao governante. Mas abre uma exceção: os magistrados inferiores, como os antigos éforos e tribunos, têm o dever de conter o tirano. Para Silvestre, esse direito de resistência convive com o dever de submissão, e dele saiu o potencial que os calvinistas posteriores desenvolveram.
Esse direito não contradiz o dever imperioso de se submeter à autoridade."Calvino e o Direito de Resistir ao Estado", Fides Reformata 7, nº 2 (2002)
Guilherme de Carvalho reconhece que Calvino, pessoalmente, era conservador e excluía a resistência ativa do cidadão comum. Mas mostra que reformadores posteriores, como Ponet, Goodman e John Knox, foram além, e Knox chegou a defender a revolução popular. Para Carvalho, essa política de resistência nasce da própria cosmovisão calvinista.
Knox, o mais radical, defendeu inclusive a revolução popular."A Cosmovisão Calvinista e a Resistência ao Estado", Fides Reformata X, nº 2 (2005)
Estamos com a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: "Deus constituiu autoridades para administrarem a vida em comunidade e exercerem juízos nas sociedades, pelo bem da coletividade". O cristão pentecostal honra as autoridades, paga os impostos, ora pelos governantes e obedece às leis, não por medo, mas pela consciência, como manda Romanos 13:5.
O limite é a Bíblia. A Declaração ensina que a submissão tem "como limite de tal submissão os preceitos bíblicos" e que, em caso de conflito, a Bíblia prevalece. Quando uma lei obrigar a negar a fé ou a pecar, obedecemos a Deus, com respeito e sem violência, dispostos a assumir as consequências, como os apóstolos em Atos 5.
E não somos cidadãos passivos. A mesma Declaração afirma que "podemos votar, ser votados e participar da organização e da atividade do poder estatal". Numa democracia, os meios legítimos de mudar o que está errado estão abertos ao cristão. Respeitamos os irmãos reformados que falam em resistência: queremos, como eles, que só Deus seja Deus.
Posição O Paladino · linha editorial pentecostal
A ordem de sujeição vale para todos os cristãos (13:1).
A autoridade é "ministro de Deus para teu bem" (13:4): existe para servir.
A sujeição não é só por medo, "mas também pela consciência" (13:5).
Pagar impostos é parte da obediência cristã (13:7).
Atos 5:29 é o limite que os dois lados reconhecem.
Paulo pediu submissão a cristãos que viviam sob um imperador pagão (contexto).
Os dois lados reconhecem que nenhuma autoridade pode obrigar o cristão a pecar (Atos 5:29).
Franklin Ferreira avisa que responder ao abuso com desprezo pela autoridade termina em anarquia.
Cristãos sérios discordam sobre os meios de resistência. A divergência é de interpretação, não de fidelidade a Cristo.
Antes de discutir os limites, pratique a regra: honre as autoridades, pague os impostos, cumpra as leis justas e ore pelos governantes, inclusive os de quem você discorda. Romanos 13 começa pela submissão, e a maior parte da vida cristã acontece aí.
Quando uma lei obrigar a pecar, o caminho é o de Pedro e dos apóstolos: obedecer a Deus, com respeito, sem violência e aceitando as consequências. E use os meios que a lei garante: votar, participar, protestar pacificamente e recorrer à justiça.
Dica: Leia Romanos 13 junto com o capítulo 12. Paulo acabara de escrever "Não vos vingueis a vós mesmos" (12:19), e a autoridade aparece logo depois como a ordem que Deus usa para castigar o mal.
Os dois lados leem Romanos 13 com Atos 4:19-20 e 5:29 (os apóstolos diante do Sinédrio), Daniel 3 e 6 (a fidelidade sob reis pagãos), Êxodo 1:15-21 (as parteiras), Mateus 22:21 ("dai a César"), 1 Timóteo 2:1-2 e 1 Pedro 2:13-17.
"Autoridades superiores" (13:1) traduz exousiai hyperechousai, poderes que estão acima. Segundo o léxico de Thayer, no Bible Hub, exousia aqui designa quem detém autoridade, o governante ou magistrado humano. "Ministro" (13:4, 6) traduz diakonos e leitourgos, palavras de serviço. "Tributo" e "imposto" (13:7) traduzem phoros e telos.
Romanos 13 chama o cristão a ser o melhor cidadão do país: honra, paga impostos, ora e obedece. Mas a autoridade é ministro de Deus, não Deus. Para nós, quando a lei manda pecar, obedece-se a Deus, com respeito e aceitando as consequências; e os meios legítimos da democracia estão sempre à disposição.
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Wan Anderson Pelicioni de Castro, editor responsável. Sugestão de pauta, correção ou conversa: mande mensagem no Instagram.
Consulta às fontes em 03/11/2026.
Pesquisa nas fontes listadas e redação feitas com apoio de inteligência artificial. Citações literais conferidas no texto das páginas citadas. A lição da CPAD foi lida na reprodução do site Estudantes da Bíblia. A moeda de Nero ilustra o imperador do tempo em que Paulo escreveu a carta. Linha editorial pentecostal adotada pelo portal em 30/10/2026.