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Romanos 13:1-7: até onde vai a obediência do cristão ao governo?

Romanos 13:1-7Epístola · Novo TestamentoNível intermediário40 min de estudo

Paulo mandou os cristãos de Roma se sujeitarem às autoridades. Para nós, a submissão é a regra, e o limite é a Palavra de Deus.

· Redação O Paladino

Moeda romana de ouro, 66-67 d.C.: o perfil do imperador Nero, voltado para a direita, com coroa de louros, e a inscrição IMP NERO CAESAR AVGVSTVS em volta
Áureo de ouro do imperador Nero (moeda romana, 66-67 d.C.). The Metropolitan Museum of Art, Nova York (domínio público, Open Access CC0)

"Toda a alma esteja sujeita às autoridades superiores." Paulo escreveu isso aos cristãos de Roma no tempo do imperador Nero. As Assembleias de Deus ensinam submissão às autoridades, com um limite: quando a lei humana contraria a de Deus, obedece-se a Deus e aceitam-se as consequências. Pensadores da tradição reformada defendem que a autoridade que perde a legitimidade pode ser resistida por meios legítimos. Mostramos os dois lados, e dizemos onde estamos.

Versículo-chave

Toda a alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram ordenadas por Deus.
Romanos 13:1 · Almeida Corrigida Fiel (ACF), © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, citação curta

Contexto

Paulo escreveu aos Romanos por volta do ano 57 ou 58, segundo o luterano Paulo Daenecke e o comentarista Matthew Henry. O imperador era Nero, que governou de 54 a 68. A perseguição de Nero aos cristãos, depois do incêndio de Roma, veio anos mais tarde, em 64.

O contexto ajuda a entender o versículo 7. O historiador romano Tácito registra, nos Anais, que o povo protestava contra a ganância dos cobradores de impostos no tempo de Nero, a ponto de o imperador pensar em abolir os impostos indiretos. Paulo, mesmo assim, manda pagar "a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto".

Matthew Henry, comentarista inglês do século 18, escreveu que nenhum governante perverteu tanto os fins do governo quanto Nero, e mesmo assim Paulo apelou a ele e teve a proteção da lei; melhor um mau governo do que nenhum (tradução livre).

Estrutura do texto

Uma ordem, uma razão e um dever prático. Paulo diz de onde vem a autoridade (13:1), para que ela existe (13:4) e o que o cristão lhe deve (13:7). O debate gira em torno do versículo 4: o que fazer quando a autoridade deixa de ser ministro de Deus para o bem?

  1. A origem da autoridadeRm 13:1-2. Toda autoridade vem de Deus; quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus.
  2. A função da autoridadeRm 13:3-4. O magistrado é ministro de Deus para o bem: louva quem faz o bem e castiga quem faz o mal.
  3. A consciênciaRm 13:5. A sujeição não é só por medo do castigo, mas também pela consciência.
  4. Tributos e honraRm 13:6-7. Pagar tributos e impostos e dar a cada um o temor e a honra devidos.

O que dizem os teólogos

O cristão deve obedecer a qualquer governo, resistindo só quando é obrigado a pecar, ou pode resistir por meios legítimos a uma autoridade que perde a legitimidade?

A submissão às autoridades é a regra, e só se desobedece quando a lei humana contraria a de Deus, aceitando as consequências (Assembleias de Deus e outros evangélicos)

Toda autoridade é instituída por Deus, e o cristão a honra, paga tributos, ora por ela e obedece por consciência. O único limite é a Palavra: quando a ordem humana contraria a de Deus, "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29). Mesmo então, o cristão desobedece sem violência e aceita as consequências.

Declaração de Fé das Assembleias de DeusTexto oficial da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB)

A Declaração de Fé ensina que Deus constituiu as autoridades para administrar a vida em comunidade e que a igreja não pode desconsiderá-las. Ela reconhece a legitimidade das autoridades e ensina a submissão a elas, com um limite: os preceitos bíblicos. Em caso de conflito entre as normas do Estado e a Bíblia, a Bíblia prevalece (Atos 5:29). E afirma o direito de votar, ser votado e participar da vida pública.

Reconhecemos a legitimidade das autoridades constituídas e ensinamos nossa submissão a elasDeclaração de Fé (CGADB/CPAD), capítulo XVI, sobre a Igreja e o Estado (novembro de 2016)
José GonçalvesComentarista das Lições Bíblicas da CPAD, segundo a revista

José Gonçalves explica que, em Romanos 13, a palavra exousia se refere aos governantes civis, e que o Estado existe para promover o bem e punir o mal; sem obediência, vem a anarquia. O cristão honra as autoridades, paga os tributos e se submete por consciência. A desobediência só se justifica quando a lei humana contraria a divina, e mesmo assim o cristão assume as consequências.

A desobediência civil só se justifica no caso de conflito entre a lei humana e a divina (At 5.29)."Maravilhosa Graça", Lições Bíblicas CPAD, 2º trimestre de 2016, lição 10, "Deveres civis, morais e espirituais" (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (05/06/2016)
Hernandes Dias LopesColunista do portal Guiame, segundo a página

Hernandes Dias Lopes lê Romanos 13 como ensino sobre a origem, a natureza e a finalidade das autoridades. Deus instituiu o princípio do governo, não o despotismo, e a autoridade é serva do povo. A submissão do cristão não é servil, é crítica e positiva: se a autoridade inverte a sua função, a igreja deve alertá-la, e se a lei obriga a negar a fé, vale Atos 5:29.

Nossa sujeição às autoridades não é submissão servil nem subserviência, mas submissão crítica e positiva."Uma reflexão sobre o cristão e a política" (Guiame) (29/10/2014 (atualização))

A autoridade que deixa de servir ao bem perde a legitimidade e pode ser resistida por meios legítimos (tradição reformada da resistência)

Romanos 13 descreve a autoridade como ministro de Deus para o bem (13:4). Quando o governo usurpa o lugar de Deus e passa a perseguir o bem, ele ultrapassa os limites que Deus lhe deu. Nessa situação, o cristão não deve só suportar: pode resistir por meios legítimos. Na tradição de Calvino, essa resistência cabe primeiro às autoridades inferiores, que têm o dever de conter o tirano.

Franklin FerreiraProfessor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos (SP), segundo a Gazeta do Povo

Franklin Ferreira resume o princípio geral: obedecer, exceto quando a ordem envolver pecado. Mas vai além da desobediência pontual: para ele, a obediência ao Estado é legítima até o ponto em que o Estado tenta usurpar o lugar de Deus. Quando ultrapassa esse limite, o cristão deve resistir com fidelidade, sempre com postura respeitosa e consciente da sua cidadania celestial.

Quando o Estado ultrapassar seus limites, resista com fidelidade."O cristão e a legítima obediência ao Estado" (coluna na Gazeta do Povo) (17/07/2025)
Armando Araújo SilvestreDoutor em Ciências da Religião e professor da pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Mackenzie, segundo a revista (2002)

Armando Silvestre mostra que Calvino, nas Institutas, não dá ao cidadão comum o direito de resistir ao governante. Mas abre uma exceção: os magistrados inferiores, como os antigos éforos e tribunos, têm o dever de conter o tirano. Para Silvestre, esse direito de resistência convive com o dever de submissão, e dele saiu o potencial que os calvinistas posteriores desenvolveram.

Esse direito não contradiz o dever imperioso de se submeter à autoridade."Calvino e o Direito de Resistir ao Estado", Fides Reformata 7, nº 2 (2002)
Guilherme Vilela Ribeiro de CarvalhoPastor batista e diretor do Centro Kuyper de Estudos Cristãos de Belo Horizonte, segundo a revista (2005)

Guilherme de Carvalho reconhece que Calvino, pessoalmente, era conservador e excluía a resistência ativa do cidadão comum. Mas mostra que reformadores posteriores, como Ponet, Goodman e John Knox, foram além, e Knox chegou a defender a revolução popular. Para Carvalho, essa política de resistência nasce da própria cosmovisão calvinista.

Knox, o mais radical, defendeu inclusive a revolução popular."A Cosmovisão Calvinista e a Resistência ao Estado", Fides Reformata X, nº 2 (2005)

Em que os dois lados concordam

  • A autoridade vem de Deus e é limitada por Deus, e o limite é a Palavra (Atos 5:29): a Declaração de Fé, José Gonçalves, Hernandes Dias Lopes e Franklin Ferreira dizem isso.
  • A autoridade existe para servir ao bem (Romanos 13:4): José Gonçalves, Hernandes Dias Lopes e Franklin Ferreira partem dessa função.
  • A anarquia é rejeitada: José Gonçalves alerta para o risco de anarquia sem obediência, e Franklin Ferreira escreve que responder ao abuso com desprezo pela autoridade termina em anarquia.
  • Mesmo quem defende a resistência reconhece o dever geral de submissão: Armando Silvestre lembra que esse direito não contradiz o dever de se submeter à autoridade.

Nossa posição

Estamos com a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: "Deus constituiu autoridades para administrarem a vida em comunidade e exercerem juízos nas sociedades, pelo bem da coletividade". O cristão pentecostal honra as autoridades, paga os impostos, ora pelos governantes e obedece às leis, não por medo, mas pela consciência, como manda Romanos 13:5.

O limite é a Bíblia. A Declaração ensina que a submissão tem "como limite de tal submissão os preceitos bíblicos" e que, em caso de conflito, a Bíblia prevalece. Quando uma lei obrigar a negar a fé ou a pecar, obedecemos a Deus, com respeito e sem violência, dispostos a assumir as consequências, como os apóstolos em Atos 5.

E não somos cidadãos passivos. A mesma Declaração afirma que "podemos votar, ser votados e participar da organização e da atividade do poder estatal". Numa democracia, os meios legítimos de mudar o que está errado estão abertos ao cristão. Respeitamos os irmãos reformados que falam em resistência: queremos, como eles, que só Deus seja Deus.

Posição O Paladino · linha editorial pentecostal

O que o texto ensina

Toda a alma

A ordem de sujeição vale para todos os cristãos (13:1).

Ministro de Deus

A autoridade é "ministro de Deus para teu bem" (13:4): existe para servir.

Pela consciência

A sujeição não é só por medo, "mas também pela consciência" (13:5).

A quem tributo, tributo

Pagar impostos é parte da obediência cristã (13:7).

Mais importa obedecer a Deus

Atos 5:29 é o limite que os dois lados reconhecem.

Escrito sob Nero

Paulo pediu submissão a cristãos que viviam sob um imperador pagão (contexto).

Leituras equivocadas

Usar Romanos 13 para justificar qualquer ordem do governo Grave

Os dois lados reconhecem que nenhuma autoridade pode obrigar o cristão a pecar (Atos 5:29).

Usar a resistência como desculpa para desprezar a autoridade Moderada

Franklin Ferreira avisa que responder ao abuso com desprezo pela autoridade termina em anarquia.

Chamar de rebelde ou de omisso quem lê diferente Moderada

Cristãos sérios discordam sobre os meios de resistência. A divergência é de interpretação, não de fidelidade a Cristo.

Para a vida

Antes de discutir os limites, pratique a regra: honre as autoridades, pague os impostos, cumpra as leis justas e ore pelos governantes, inclusive os de quem você discorda. Romanos 13 começa pela submissão, e a maior parte da vida cristã acontece aí.

Quando uma lei obrigar a pecar, o caminho é o de Pedro e dos apóstolos: obedecer a Deus, com respeito, sem violência e aceitando as consequências. E use os meios que a lei garante: votar, participar, protestar pacificamente e recorrer à justiça.

É para você se…

  • Cristãos que se perguntam como agir diante de leis injustas
  • Líderes e professores que ensinam sobre fé e cidadania
  • Quem quer entender o que a Bíblia diz sobre política

Pense duas vezes se…

  • Quem procura um versículo para justificar a própria posição partidária

Como estudar

  • Sozinho: Leia Romanos 12:17 a 13:10 de uma vez e anote como o amor ao próximo emoldura a obediência às autoridades.
  • Em família: Conversem sobre como honrar autoridades de quem discordamos, com 1 Timóteo 2:1-2.
  • Em grupo: Monte uma tabela com Romanos 13:1-7, Atos 5:29, Daniel 3, Êxodo 1:15-21 e 1 Pedro 2:13-17 e a leitura de cada lado.

Dica: Leia Romanos 13 junto com o capítulo 12. Paulo acabara de escrever "Não vos vingueis a vós mesmos" (12:19), e a autoridade aparece logo depois como a ordem que Deus usa para castigar o mal.

Versículos para ler junto

  • Atos 5:29 Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.
  • Romanos 13:4 Porque ela é ministro de Deus para teu bem.
  • Romanos 13:7 Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.
  • Romanos 13:5 Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência.

Os dois lados leem Romanos 13 com Atos 4:19-20 e 5:29 (os apóstolos diante do Sinédrio), Daniel 3 e 6 (a fidelidade sob reis pagãos), Êxodo 1:15-21 (as parteiras), Mateus 22:21 ("dai a César"), 1 Timóteo 2:1-2 e 1 Pedro 2:13-17.

Traduções

"Autoridades superiores" (13:1) traduz exousiai hyperechousai, poderes que estão acima. Segundo o léxico de Thayer, no Bible Hub, exousia aqui designa quem detém autoridade, o governante ou magistrado humano. "Ministro" (13:4, 6) traduz diakonos e leitourgos, palavras de serviço. "Tributo" e "imposto" (13:7) traduzem phoros e telos.

Para guardar

Ideal para grupos

Romanos 13 chama o cristão a ser o melhor cidadão do país: honra, paga impostos, ora e obedece. Mas a autoridade é ministro de Deus, não Deus. Para nós, quando a lei manda pecar, obedece-se a Deus, com respeito e aceitando as consequências; e os meios legítimos da democracia estão sempre à disposição.

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Fale com o editor

Wan Anderson Pelicioni de Castro, editor responsável. Sugestão de pauta, correção ou conversa: mande mensagem no Instagram.

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Ficha

Livro
Romanos
Autor
O apóstolo Paulo
Cenário
Carta à igreja de Roma, escrita por volta de 57 ou 58, no início do governo de Nero
Passagem
7 versículos (13:1-7)
Palavras-chave
exousia (autoridade), diakonos (ministro), syneidēsis (consciência), phoros (tributo)

Fontes

Consulta às fontes em 03/11/2026.

Como foi feito

Pesquisa nas fontes listadas e redação feitas com apoio de inteligência artificial. Citações literais conferidas no texto das páginas citadas. A lição da CPAD foi lida na reprodução do site Estudantes da Bíblia. A moeda de Nero ilustra o imperador do tempo em que Paulo escreveu a carta. Linha editorial pentecostal adotada pelo portal em 30/10/2026.

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