João 15:1-11: o que significa permanecer na videira quando o Pai começa a podar
Na última noite com os discípulos, Jesus usou a imagem mais simples da roça: ramo que fica ligado dá fruto, ramo solto seca.
Na última noite com os discípulos, Jesus usou a imagem mais simples da roça: ramo que fica ligado dá fruto, ramo solto seca.

Depois da última ceia, a caminho do Getsêmani, Jesus disse: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador". Lições da CPAD, um pastor batista e um pastor luterano leem o texto do mesmo jeito: o fruto não nasce do esforço do ramo, nasce da comunhão com Cristo, e a poda é cuidado do Pai. Para nós, pentecostais, permanecer na videira é viver cheio do Espírito, em oração e na Palavra.
Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.João 15:5 · Almeida Corrigida Fiel (ACF), © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, citação curta
João 15 faz parte do discurso de despedida de Jesus, depois da última ceia e do lava-pés (João 13 a 16), e termina na oração de João 17. Em 14:31 Jesus diz "levantai-vos, vamo-nos daqui", e muitos comentaristas, como o batista Leandro Peixoto, entendem que a fala da videira foi dita já a caminho do Getsêmani.
A imagem tinha história. No Antigo Testamento, Israel é a vinha que Deus plantou e que deu uvas bravas (Salmo 80:8; Isaías 5:1-7; Jeremias 2:21). Quando Jesus diz "Eu sou a videira verdadeira", ele se apresenta como o que Israel deveria ter sido. É o último dos sete "Eu sou" do Evangelho de João, ao lado do pão da vida (6:35) e do bom pastor (10:11).
Matthew Henry, comentarista inglês do século 18, notou que até os ramos que dão fruto precisam ser podados para dar mais, e que permanecer em Cristo é manter a união com ele pela fé. John Wesley, fundador do metodismo, resumiu o versículo 2 numa frase: pureza e fecundidade ajudam uma à outra.
Uma imagem e um verbo. "Permanecer" aparece de novo e de novo nesses versículos: é o centro do texto. Tudo o mais (fruto, oração, amor, alegria) nasce daí.
O que é permanecer em Cristo no dia a dia, e por que o Pai poda até os ramos que já dão fruto?
A lição de 2004 lê João 15 junto com Gálatas 5: o galho fora da árvore morre de fome, e o crente fora da Videira também. Cristo é a fonte de vida, força e graça, e dar fruto é chamado de todos os crentes, não de alguns. O fruto mostra a imagem de Cristo e produz santificação, e exige renúncia, consagração e oração.
Para viver e gerar fruto, é preciso que a vara permaneça ligada à videira, ou seja, que o servo de Deus esteja em comunhão com Cristo."A pessoa e a obra do Espírito Santo", 1º trimestre de 2004, lição 9, "O fruto do Espírito Santo" (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (29/02/2004)
A lição de 2017 explica a poda de João 15:2 como as aflições e dificuldades que o crente atravessa. Elas não vêm para destruir, mas para fortalecer e levar a mais fruto. E o propósito do fruto, lembra a lição, é glorificar o Pai, como diz o versículo 8.
As aflições não são para nos destruir, mas contribuem para que venhamos nos tornar pessoas mais fortes, capazes de produzir frutos em abundância."As obras da carne e o fruto do Espírito", 1º trimestre de 2017, lição 2, "O propósito do fruto do Espírito" (reproduzida no site Estudantes da Bíblia) (08/01/2017)
Leandro Peixoto situa o texto no discurso de despedida, de João 13 a 16, coroado pela oração de João 17, e liga o "Eu sou" a Êxodo 3:14. Ele nota um jogo de palavras: o Pai "limpa" a vara que dá fruto, e os discípulos já estão "limpos" pela palavra. Para ele, permanecer é crer na obra de Cristo, guardar a sua palavra, viver o seu amor e congregar.
Em grego, o verbo podar (no versículo 2) é o mesmo verbo para limpar (kathairei).Sermões "A videira verdadeira" e "A vida na videira", série O Evangelho de João (Segunda Igreja Batista em Goiânia) (16/05/2021)
Ricardo Brosowski insiste que o fruto é da videira, não do ramo: não se espera que os ramos produzam por conta própria. Prefere "purifica" a "poda" e lembra que o Agricultor continua cuidando mesmo no sofrimento. E tira daí um apelo à unidade: os outros ramos ligados à mesma videira também dão fruto, e a gente precisa reconhecê-lo.
A comunhão com Jesus é fundamental. E é justamente essa comunhão com Cristo que gera fruto."O Pai é o agricultor", prédica sobre João 15:1-8, Proclamar Libertação, volume 45 (Portal Luterano) (02/05/2021 (data da pregação))
Para o pentecostal, a seiva da videira tem nome: o Espírito Santo. No mesmo discurso, Jesus anuncia o Consolador que ficaria com os discípulos para sempre (João 14:16) e que testificaria dele (15:26). Permanecer em Cristo é viver cheio desse Espírito, e o fruto que nasce daí é o de Gálatas 5. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus diz que o novo crente "entra, de imediato, no processo de santificação": a poda do Pai faz parte desse caminho.
Por isso a gente valoriza o que muita gente acha antiquado: o culto de oração, a leitura diária da Bíblia, a Escola Dominical, a vigília. Não como obrigação, mas como os canais por onde a seiva passa. Ramo ligado à videira, cheio do Espírito, não precisa fabricar fruto: ele simplesmente aparece, no tempo certo, para a glória do Pai.
Posição O Paladino · linha editorial pentecostal
Jesus é o que Israel, a vinha de Deus, deveria ter sido (Isaías 5; Salmo 80). Nele o povo de Deus dá fruto.
"Sem mim nada podeis fazer" (15:5): o fruto não é produção do ramo, é vida da videira passando por ele.
O Pai limpa a vara que já dá fruto (15:2). Aflição na vida de quem está em Cristo não é abandono.
"Se as minhas palavras estiverem em vós" (15:7): permanecer em Cristo passa por guardar a Bíblia no coração.
Quem permanece pede segundo a vontade de quem o sustenta, e a oração é atendida (15:7).
O alvo de tudo é "que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo" (15:11).
Disciplina espiritual é boa, mas o fruto vem da comunhão, não da força de vontade. Ramo não frutifica fazendo força.
A poda é para quem já dá fruto (15:2). Nem toda aflição é disciplina por pecado; muitas vezes é o Pai preparando mais fruto.
Ninguém é a videira inteira. Há outros ramos ligados a Cristo, em outras igrejas, dando fruto também.
Permanecer não é fazer força, é ficar ligado. Na prática, isso tem rotina: a Palavra lida todos os dias (15:7), a oração, a comunhão com a igreja e a obediência no que Deus já mostrou (15:10). Ramo que se desliga um pouco por semana seca devagar, sem perceber.
E quando vier a poda, uma perda, uma doença, uma porta fechada, lembre de quem segura a tesoura: o Pai é o lavrador. Ele não corta para destruir, limpa para que a vida dê mais fruto. Pergunte a ele o que precisa sair, e confie.
Dica: Leia o texto trocando "permanecer" por "morar": "morai em mim, e eu em vós". Cristo não quer visita de domingo, quer morada.
O texto conversa com Salmo 80:8-16 e Isaías 5:1-7 (a vinha de Deus), João 14:16-26 (o Consolador que fica conosco), Gálatas 5:22-23 (o fruto do Espírito), Colossenses 2:6-7 (arraigados nele) e 1 João 2:24-28 (permanecei nele).
"Varas" (Almeida) são os ramos. "Limpa" (15:2) traduz kathairō, palavra que também significa podar, e faz jogo com "limpos" (katharoi) no versículo 3, como observa Leandro Peixoto. "Estai em mim" e "permanecei" traduzem o mesmo verbo grego, menō, que significa ficar, morar, continuar. "Lavrador" é o agricultor que cuida da vinha.
O segredo da vida cristã não está na força do ramo, mas na seiva da videira. Quem fica ligado a Cristo pela Palavra, pela oração e pelo Espírito dá fruto que permanece, atravessa a poda com esperança e conhece a alegria completa que Jesus prometeu na véspera da cruz.
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Wan Anderson Pelicioni de Castro, editor responsável. Sugestão de pauta, correção ou conversa: mande mensagem no Instagram.
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